Gabriela Soutello lança Trapaceira e investiga, em poesia, os limites entre memória e invenção. Em entrevista à Philos, a autora reflete sobre linguagem, desejo e as violências que atravessam corpo e escrita.
Há livros que se anunciam como território; outros, como armadilha. Trapaceira, novo título de Gabriela Soutello, parece escolher, com precisão e risco, o segundo caminho. Em sua estreia na poesia, a autora paulistana tensiona os limites entre lembrança e invenção, deslocando a memória do campo da verdade para o da fabulação, onde cada palavra pode ser tanto vestígio quanto artifício de si mesma.

Depois da recepção de Ninguém vai lembrar de mim (2019) e da organiza Gabriela Soutello retorna com um livro que radicaliza sua pesquisa estética e temática. Em Trapaceira, a escrita se aproxima de um corpo em disputa: entre cidades — Rio de Janeiro, São Paulo, Vila Velha e seus não-lugares —, entre afetos e violências, entre desejos e linguagens. Como sugere a própria autora, trata-se de “um jogo de enganação”, no qual a poesia não apenas narra, mas reage.
Na entrevista a seguir, concedida à Revista Philos para o editor Jorge Pereira, Gabriela revisita o percurso que a levou da prosa ao verso, reflete sobre os atravessamentos que marcam sua escrita — da experiência sapatão à dimensão do trauma — e comenta o lugar da literatura contemporânea brasileira em meio a um cenário de crise e reinvenção. Ao mesmo tempo, revela como Trapaceira se constrói como um espaço de dúvida, de fricção, onde a palavra, longe de apaziguar, expõe suas próprias fissuras.
Gabriela, de qual pulsão nasce Trapaceira? Depois de Ninguém vai lembrar de mim, quais atravessamentos lhe trouxeram inspiração para este novo livro? Como foi o seu processo criativo neste livro novo?
Eu comecei a escrever “Trapaceira” achando que seria um romance. O título ia ser “Parede de carne”. Depois, pensei que seriam contos. Não gostei, não para esses temas, para o momento em que eu estava escrevendo. Me mudei para o Rio de Janeiro, estive mais próxima de poetas, e aqui encontrei um jeito possível de seguir com essa materialização. Minha pulsão vem da ordem do inconcreto. Escrevo sobre o que é estranho, subterrâneo, marginalizado, fora de uma norma, de um nome. Escrevo sobre a morte, sobre a falta, sobre o trauma, a indefinição. A violência e o desejo, as marcas, os relacionamentos, a memória. E sempre a partir de um olhar sapatão, brasileiro, sem lugar fixo, que é o que eu tenho, afinal.
Sua trajetória recente inclui o reconhecimento pelo Prêmio Mix Literário e a presença na lista Forbes Under 30. Como esses marcos impactaram sua percepção sobre a própria escrita e o lugar que você ocupa hoje no campo literário?
Em 2019, foi tudo imenso, eu não esperava que meu primeiro livro tivesse a reverberação que teve, é claro que foi um presentão. Em alguns momentos em que eu pensei em parar de escrever (e foram muitos), acabei recebendo mensagens, incentivos de quem havia me lido e gostaria de continuar lendo. De lá pra cá, ainda estive bastante presente em eventos literários, falando ou assistindo. Mas ficar 7 anos sem lançar livro faz a gente ficar mais nas beiradas. Percebo também que os prêmios são tão subjetivos, dependem de contexto, de júri, não deveriam separar o que é um bom livro do que não é. Precisamos lembrar disso, são sempre poucos os que vencem prêmios, e muitos os que escrevem obras absurdas de maravilhosas.
Sua relação com a Casa Philos remonta à Flip de 2019, depois disso você colaborou conosco em diversas edições publicadas ao longo dessa nossa primeira década de trabalhos da Revista Philos. Temos acompanhado sua trajetória ao longo dos anos e queremos saber como você passa em revista essa última década da criação literária brasileira.
Na minha visão, só melhora. Tanto no meu repertório, individual, já que conheci muitos(as/es) autores(as) de lá pra cá, quanto no geral da literatura contemporânea: novos nomes despontando e se aperfeiçoando a cada nova publicação. Vejo contemporâneos meus inventando conexões entre escrita e batuque, fazendo festa pra falar do que é terrível, na rua, nos bares, e também nos estúdios, alcançando editoras maiores, tendo reconhecimento acadêmico, em outros estados do Brasil, em eventos internacionais… É bonito. Considerando principalmente o contexto em que vivemos (pandemia, governos fascistas, guerras, as desigualdades de classe, raça, gênero, sexualidade, o contato contínuo com a destruição), os temas estão cada vez mais expostos, com um trabalho minucioso de linguagem.
Trapaceira aponta para novos caminhos na sua escrita? Quais temas, formas ou investigações você sente que começam a emergir a partir deste trabalho e que podem orientar seus próximos projetos?
O formato, a poesia, escrever em verso, foi uma surpresa. Eu estava escrevendo em prosa e sentia que não chegava aonde queria. Então propus brincar comigo mesma, mudar a forma. O que foi difícil, porque na prosa a gente sai falando, é uma frase construída atrás de outra frase, um enredo que se cria e tem tempo pra se desenvolver lá na frente. Na poesia, não: você precisa dar foco a cada palavra, individualmente, ser mais sucinta, mais imediata – mesmo que não chegue a um lugar exato. É outro ritmo, e outras imagens a partir daí. Não sei como serão meus próximos livros, eles só se mostram no meio do caminho, mas sei que o imagético que a poesia propõe esteve e vai continuar presente no que escrevo.
A capa do livro é assinada por Victor Grizzo, artista com uma linguagem bastante marcante e que também já foi publicado pelo nosso selo. Como se dá esse encontro entre vocês (na vida pessoal e na arte literária) e de que forma a visualidade proposta por ele dialoga com o universo do livro?
Conheci Victor em uma oficina de escrita com Evandro Affonso Ferreira, 12 anos atrás, e logo nos primeiros encontros nos identificamos, um na escrita do outro. Eu adorava ouvir o Victor lendo os textos dele. Um tempo depois, nos esbarramos no metrô e combinamos de sair pra conversar. Nunca mais nos largamos. O que a gente escreve (e o que ele pinta, cria visualmente) tem muita semelhança. Tem um universo de infância e de morte, de crítica com deboche. A capa de “Trapaceira” é só um dos exemplos: eu disse ao Victor que queria um bicho e uma planta carnívora, um trapaceando o outro, fazer com que não fosse possível ter certeza: quem vai comer quem?
Pensando no público, o que você deseja provocar ou deslocar em quem entrar em contato com o livro? Existe uma experiência específica que você gostaria de compartilhar com o leitor?
Uma das coisas que mais me atrai na literatura é a dúvida que ela instaura. O não lugar exato, tentar nominar o que não dá pra dar nome. Gera um pouco de desconforto, também, porque a gente tem uma tendência de tentar controlar as coisas. Na poesia, nesse livro, a voz narrativa assume o descontrole, é trapaceada e devolve, trapaceia com a própria palavra, se contradiz, mente e fala a verdade, expõe essas contradições. Também por isso, a experiência de quem lê vai ser sempre única, subjetiva, isso me interessa.

Apresentamos três poemas inéditos do livro Trapaceira, de Gabriela Soutello, cedidos exclusivamente para a Philos:
escolher não ser mãe carrega um preço
não haverá
uma criança que cresça
uma criança que diga:
te odeio
– e tenha razão
não haverá alguém
que finja, alguém
que aprove
meu desejo abortivo
e saia da minha casa
uma família
– não haverá
a isso, chamo
costume
tenho inveja
de quem mente
nunca aprendi
tenho vontade
quando tento
uso o dedo pra segurar
a mentira
enquanto escrevo
um pássaro
suicida procura
minhas mãos
me proíbe
um pássaro livre
se enfia
nos buracos da janela
:uma escolha
um bicho que tenta
um bicho que entra
pra morrer
sei,
sinto amor
pelo pássaro
fragmentado
pelas asas
que farfalham
que esfarelam
antes da dor
antes do miado
meu pássaro
morto
nos dentes
dos meus gatos
essa mentira
esse bicho
desejo escrever

Gabriela Soutello é escritora e jornalista, Forbes Under 30 e vencedora do Prêmio Mix Literário, do Festival Mix Brasil, em 2019. Psicanalista em formação, foi curadora de uma antologia e publicou contos e poemas em diversas outras coletâneas, revistas e portais literários. Como jornalista, trabalhou para a Revista Cult, a Quatro Cinco Um e a Deutsche Welle Brasil, na Alemanha. Também trabalhou para a Netflix e a Deezer, sempre ligada ao universo da palavra, da arte e da cultura.